domingo, 25 de fevereiro de 2007

encontro


as cartas todas que o coração escreve
em tinta suave mágica indelével
não dirão tudo quanto os olhos
se mergulhados nos teus te servem
.
imagina que te acercas de mim ao passar
numa esplanada luminosa frente ao mar
na minha nuca o teu olhar pousado
eu que estremeço e me viro de lado
.
então, nota bem como o céu arde por dentro
.
que choque as ondas fazem nos rochedos
que tremuras nas areias soltas e molhadas
que rumor o mar nos ensurdece
que branca espuma se desfaz no horizente
.
e nada ouvimos, nem a pele nada sente
porque na luminosidade forte do olhar
fez-se para além do mundo e do presente
o silêncio primordial da criação do tempo
.
e neste intervalo do mar, nesta onda sísmica
em nossos corpos, sabemos eu e tu quão loucos
os corações nos cortam como lâminas dentro
e em arritmias seguem-se impulsos do momento
.
levanto-me e sigo-o ou apenas o contemplo
sento-me a seu lado ou apenas a precedo
busco-lhe a mão, retenho-o aqui a medo
acerco-me dela com um decisivo beijo?
.
e os olhos neste labirinto são cristais
desferem magma em estado líquido
chispas de pura magia e um sorriso
e as palavras refundidas de banais
.
não serviriam no sapatinho de Cinderela
pois mais do que a busca do encontro
há o encontro que se busca e basta
e palavras algumas obteriam resposta
.
passarias levando contigo o meu olhar
porque nada que (se) dissesse apagaria
a beleza única de mergulhar no teu mar
a entrega pública de um corpo à maresia
.
se te encontrasse assim à luz do dia
podia dizer que já teria sido tua
a envolvência próxima do teu corpo
seria o noivado do amor e do tempo
.
.
maresia: a força da atracção entre dois seres