sexta-feira, 24 de agosto de 2007

ainda o amor...


podia falar-te ainda do cheiro a Abril
que rescende dos meus lençóis
mas isso são meros pormenores

que não são o amor

podia em boa verdade dizer-te
da doçura das manhãs em lume brando
ou da lassidão do vento quando amanhece
podia falar-te da doçura dos meus lábios
ao vestir-te o corpo à noite
e ao acordar-te no sonambulismo do sonho
para te adormecer de novo junto ao meu peito
.
falar-te do silêncio que me mora dentro
e te estendo como um tapete de lírios
e de outras flores que amamos

mas isso continua a não ser o amor

de como sinto mítico e magnífico qualquer
sinal da natureza e o associo a ti
como este coaxar de rãs que ora mesmo começou
e me anuncia chuva e de como a chuva e tu
fazem parte de um mesmo plano de Deus
para me fazer feliz

mas todos os sinais que o amor produz
são só sinais de amor
continuam a não ser o amor
.
podia enlaçar-te com os meus braços
e prender-te neles, seria um abraço de morte
mas quero que vivas e perdures em tudo
que é obra e oferenda da natureza
e do amor que te dedico: pensa no milagre
que é o amor e como tens nas tuas mãos
a mesma ave que outros tiveram
poetas e visionários, homens de louvor
e como essa ave te eleva o coração
até ao céu dos deuses numa barca
feita de nuvens e de novelos de sol
.
pensa na beleza do amor como no teu melhor fato
que vestes somente para os dias de festa
enquanto o fato do amor, esse, podes vesti-lo
sempre com um sorriso pregado à lapela
e um olhar que de dentro, se abre ao mundo
como uma luminosa janela...
.
podia enfim falar-te da densidade do amor
na tempestade que me ocorre se te penso
nas altas pressões da tua ausência, mas é inútil
esperar o arco-íris antes que a chuva chegue
é inútil falar de amor, repetidamente,
porque o melhor que o amor nos guarda
é viver o amor na fuga do corpo e da alma

urgentemente em cada nova alba


Bom dia!