um dia poderei talvez
fazer uma pira com as palavras todas
uma a uma a estalar como fresca flora
até nem um só carvão me escrever
os momentos de júbilo e de derrota
deixar ao mundo só a minha fala em cinzas
uma árvore a nascer sobre o meu túmulo
e a piedosa lápide de ter existido
num sítio obscuro do vasto mundo
é esse o sentido da minha palavra
a correr para o delta dos teus braços
sem sentido os sentimentos sitiados
vives a boiar no meio dos meus beijos
prendem-se a ti as palavras que te sopro
como parasitas ávidos escolhem os teus olhos
e eu não sei se sou borboleta que leve leva o ar
ou se barbatana que afasta a água para passar
tento alumiar palavras no pavio dos dedos
tento ser o farol dos meus próprios medos
mas busco um excesso de certeza que me incerta
no valor das palavras tuas que possivelmente recebo
ah, esfaquear o silêncio e todas as frestas
por onde o amor espreita
atravessar em diagonal o teu peito
rasgar de amor a tiara do teu desejo
e sim, ouvir os teus pensamentos
próximos exactos e perfeitos!