demoro-me entre as janelas antes de pousar a casa que trago aos ombros. tudo se subverte na memória e a casa que antes me parecia vazia e íngreme parece agora sólida e cheia. reparo nas ranhuras por abrir, nas unhas que limaram os muros e não recordo quanto arranhei de mim nas horas lentas dos meus dias. atemoriza-me a porta que nem sequer ficou fechada, como podemos deixar que o destino nos empurre para fora da casa sem, sequer, o alto arbítrio de um gesto ? um círculo incompleto, fogo inconcluso, cadeiras silenciosas na razão do cerco a uma mesa vazia. dois jogadores de xadrez, a dama suspende a peça que já não estava em jogo, a dama suspende-se no jogo que a torre enfastiou. altaneira, a fachada da casa esboça um sorriso doce, nem sequer cai uma trave de qualquer mão, nem um cano jorra sangue, nenhuma lâmpada se fundiu na cave irrespirável. numa casa tão demorada, que valor atribuimos aos simples adornos que a contiveram? substractos de palavras, bibelots de ternura e espera, gratidão no canto escuro da solidão, louças empilhadas com a fome da palavra entardecida. e os quadros lamentosos e ternos que nos ornam as têmporas, o fenezim que nos ligou à vida, na busca calada de um corpo a tapar a chaminé de onde soprava o vento da morte. e a penumbra do silêncio ciciadamente aceso. uma casa longa entertecida com o betão que os olhos foram produzindo de tanto se fixarem no vazio branco das noites. uma casa assim não morre mesmo que outras maiores ombreiem o tempo no mesmo traçado urbanístico. uma casa assim tem de ser delicadamente fechada com um luminoso sorriso, ou incinerada em sal, porque lá dentro ainda a habitam sombras do que poderia ter sido.