sim, confirmo, para quem ainda duvide, esta é a minha sombra e todos os dias me leva até onde tenho de ir. todos os dias chego a casa e dispo a sombra sem ninguém ver. penduro-a no cabide e fico apenas com a pele que sou. a minha sombra não tem a opacidade de uma máscara, nem é um biombo, é apenas o resultado da inclinação do sol sobre o meu corpo. e segue-me, acompanha-me como uma marca de autenticidade do meu sangue. estou viva. existo na minha sombra que é o lugar onde sou real. em casa não tenho sombra. em casa e contigo a sombra sou eu, tu és o objecto. sigo-te e espero-te, espero-te e sigo-te. nem sombra da tua sombra. contigo eu e a sombra transformamo-nos num fino véu de tule que tu dantes delicadamente punhas de lado, para vir beijar o meu corpo. era o portal que franqueavas quando a saudade zunia ao vento, dobravas a porta, mesmo que rangesse, e vinhas respirar a névoa à volta. eram sombras e só tu sabias. eram as sombras que nos rodeavam os gestos e as palavras. eu podia dizer, amo-te, quantas vezes quisesse, porque palavras como estas nasciam de uma luz dourada que eu via dentro das tuas mãos, mesmo quando recolhidas. agora as tuas mãos perderam a sombra, e as minhas ficaram rubras e desmaiadas, na sua trémula ciência de amar o silêncio da noite.
a sombra é como os mendigos ocasionais de uma rua atarefada. estão lá, mas o olhar incomodado passou ao largo para não os ver. sou eu ainda, nao vês que sou? podes um destes dias reparar no que as sombras descerram na lápide da vida. não sei que nos falta este Verão para pintar o estio mais luminoso das nossas existências. define-me o fervilhar obscuro das furnas onde se produz apenas a inércia e o sedimento da morte.
delimita a sombra que me vês nas palavras e afasta a cortina. cá dentro a minha vontade permanece com palavras a nascer à sombra da memória. escrevo-te com um sorriso guardado no bolso, mas só sei ser a estrutura da casa. a alma da casa é o lume que acendes. e às vezes é preciso chegar ao último patamar da existência a dois, para se entender o edifício como um lugar que continuamente cresce.