I
o vulto ambíguo do vendaval
adverte a noite mutilando arestas
e investe no silêncio pelas suas frestas
II
nos flancos dos prédios à esquina
tudo estremece e assobia
o vendaval sacode os ombros da noite
como se cravasse pregos em surdina
nos rostos turvos dos homens
III
o vento assim como onda sibilina
onde a nocturna placidez da vida
neste cenário se adivinha?
IV
e porém a noite é um poema
e toda a natureza nele grita
não sou eu que escrevo a noite
nem as ausências que a noite rima
V
e porém toda a calma da noite
se avizinha da mão que escreve o poema
o sangue em palha plácido caminha
só as palavras trotam sem rédeas
nem destinoVI
que fizemos nós da noite em franjas
da noite faminta e belaa noite de organzza a noite astral
quando tu vinhas entre dois tufos de nuvens
antecipar-me o vendaval
VII
e elipses havia no fundo dos olhos
e lápides erguidas e léguas de breue lumes levemente acesos à janela
como se passassem procissões e
tudo dentro fosse festa
VIII
inerte sobre a palha a lua luzia
no leito vagaroso do poemaboca a boca a noite acasalaria
com o vento insuflado, veia a veia
o fôlego em sangue o amor
na língua lenta urgia
IX
e hoje o vendavel vem
e voam entre nós as pálpebras vaziaso indispensável silêncio o absoluto infinito
são as rosas que nos alimentam
e nos mortificam