sábado, 19 de maio de 2007

vendaval do sonho



I

o vulto ambíguo do vendaval
adverte a noite mutilando arestas
e investe no silêncio pelas suas frestas

II

nos flancos dos prédios à esquina
tudo estremece e assobia
o vendaval sacode os ombros da noite
como se cravasse pregos em surdina
nos rostos turvos dos homens
III

o vento assim como onda sibilina
onde a nocturna placidez da vida
neste cenário se adivinha?

IV

e porém a noite é um poema
e toda a natureza nele grita
não sou eu que escrevo a noite
nem as ausências que a noite rima

V

e porém toda a calma da noite
se avizinha da mão que escreve o poema
o sangue em palha plácido caminha
só as palavras trotam sem rédeas
nem destino

VI

que fizemos nós da noite em franjas
da noite faminta e bela
a noite de organzza a noite astral
quando tu vinhas entre dois tufos de nuvens
antecipar-me o vendaval

VII

e elipses havia no fundo dos olhos
e lápides erguidas e léguas de breu
e lumes levemente acesos à janela
como se passassem procissões e
tudo dentro fosse festa

VIII

inerte sobre a palha a lua luzia
no leito vagaroso do poema
boca a boca a noite acasalaria
com o vento insuflado, veia a veia
o fôlego em sangue o amor
na língua lenta urgia

IX

e hoje o vendavel vem
e voam entre nós as pálpebras vazias
o indispensável silêncio o absoluto infinito
são as rosas que nos alimentam
e nos mortificam