sexta-feira, 18 de maio de 2007


o dia a arder logo pela manhã e eu na fornalha da cidade sigo contra a densa espuma do trânsito, certa bruma do rio a lembrar partidas promissoras, as naus da vida aparelhadas e eu no momento da chegada. sei que também daqui um dia partirei, mas agora chego. caminho face ao lodo do cais hoje mais fundo na aspiração matinal, uma cidade e um rio e tudo navega no olhar. sento-me numa mesa da cantina àquela hora deserta, contabilizo já os meus dias de funcionária correcta, como se fosse um café pontual, e peço ao balcão um rissol e um sumo. tudo tão pontual e quotidiano a vir... beberrico o sumo e o rio, o rio a passar por mim, tanto sol nas minhas mãos morenas, todo o corpo arde e é ainda manhã tenra. era agora que a poesia vinha assaltar-me a chávena, ou o guardanapo e a mão escrivinharia no açúcar uma palavra invisível, como bruma doce destinada a ti. sonho com os olhos a distância e acho o teu rosto ali ao lado, na inclinação do meu. o teu olhar quente cobre-me a saia curta moldada à anca, o casaco justo, o teu olhar ajusta-se ao levante do meu corpo e eu inebriada com a tua masculinidade, o odor matinal do teu barbeado fresco e anelente estico o nariz para dentro do teu ouvido, ah... o aroma doce da vida vivida perto. parto de ti com pena, deixo-te com o quardapanapo nas mãos a decifrar a escrita rápida que sempre te fala deste amor teimoso, talvez limpes os lábios, talves beijes as palavras, já não tive tempo de ver, vou para o gabinete condicionado frente ao lodo e o cais não demora a vir enjoar-me até me ensurdecer. a cidade vence a tecnologia, os cheiros da cidade atravessam os vidros duplos dos lugares climatizados, sento-me a escrever e no ecran a palavra reabre-se. um verso insubmisso atravessa a súbita amanhã furtiva. páro o sonho e escrevo coisas sérias e coerentes para alguém ler. a minha rotina recusa a usurpação, a manhã é para nós no leito de um rio a remar para dentro do olhar, a manhã despida, a manhã vulnerável ao risco impresso de emoções, ainda no limbo dormimos abraçados, na recusa da claridade. mas hoje, que o leito nos desabou tão cedo da pele, como posso escrever coisas comuns se estás aqui nas minhas cercanias próximas, desperto e anfíbio, lentamente dentro do meu espelho? abro a janela e deixo a cidade entrar. sais levado pela brisa quente e eu prometo a mim mesma que amanhã te deixo fechado a sete chaves em casa, no nosso búzio ocasional, onde somos hospedeiros permanentes. a nossa arca do amor. agora que a noite veio, as leves ondas do rio vêm espumar-nos perto o sono e a sede de amar que temos certos. agora não tenho coisas sérias para fazer. podes levar-me contigo para dentro do rio, se queres. a fornalha do dia ainda me arde no teu presente rosto. já dormes? é que eu ainda não consegui arrumar o dia e calar-te dentro.