quarta-feira, 14 de março de 2007

viagem ao centro do corpo

deitada pelo centro do corpo, a posição de eternidade que me anseio. experimento o prazer da imobilidade nas minhas costas, nos membros, na face, nas mãos depostas sobre o peito. aspiro-me devagar, entre cada batimento da vida. deixo que o mundo desapareça, quero encontrar-me comigo mesma num local onde nunca tenhamos estado, eu e o meu corpo. toco-me nas têmporas, nos seios, nas coxas, nos braços. apenas uma sensação de calor a sair do corpo, como pedra quente ao sol, subitamente batida pala aragem fria do fim de tarde. gosto de me sentir parte do reino mineral, imaginar-me una e silenciosa, sempre igual e inamovível, penedo inclinado na serra com um vestido de preciosos líquenes, mas bem preso à terra, quase com raízes de árvore. gosto das coisas imóveis, estátuas, árvores, muros, pedras, casas. liberto-me por aí entre o reino animal e o vegetal, voo por entre as copas de um arvoredo incomensuravelmente belo. porém o meu corpo permanece, regresso ao fundo de mim mesma, o pensamento ainda me resiste. hesito entre partir as amarras ou levá-las comigo. podia agora fugir para ti e as tuas mãos viriam chorar sobre as minhas, ou depôr-se a meu lado, porque há algo em ti que sempre me pertencerá, se vives num sacrário só meu. podia imaginar as tuas mãos a falarem-me baixinho apostas sobre o meu corpo, a despertá-lo com a música idefinível do teu olhar, os teus lábios macios e doces presos ao meu corpo imóvel, num arrepio de voz podia falar contigo a noite toda, e toda a noite seria de amor. podia sentir a levitação própria dos momentos felizes, eu e tu lado a lado face à eternidade de uma noite soprada ao ouvido, a morte funda em nós fundeando mil mortes do corpo para depois voltarmos à posição de eternidade, com as mãos postas sobre o ventre. e numa objecção que não me atrevo a formular, levito-me só para o fundo dos meus sentidos.
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conhecer hoje a extensão do meu espaço, saber até onde me leva na imobilização de toda matéria que me compõe, numa espécie de decantação de tudo que me pesa. os resíduos da pele, a noite gasta, os olhos infinitamente abertos para assistir ao banquete da morte, a renúncia da voz, caída sobre o peito, diáspora deserta, ver os meus pensamentos despidos, etereamente sóbrios e solúveis em qualquer ácido letal. apagar uma a uma as gargalhadas que jamais daremos, os beijos falsos que podíamos ter dado, as mulheres que amaste quando te esperei meu, a imagem fragmentada do meu sentir. delete, control alt delete, selar a pele com o timbre escuro da noite deserta, a que enfrentamos separados porque temos um rio amarelo e triste preso entre os ombros, cada margem nos fala da impossível travessia e o solo arenoso puxa-nos para dentro. deixar-me descer para o lodo, a doce frescura da argila que me envolve o corpo, estou no deserto e as areias são ainda quentes, ainda me resta uma duna do teu corpo, aninho-me e assim me deixo levar para o fundo. fecho os olhos. estou agora na imobilidade que pretendo, não se me nota nem a tremura do mínimo músculo. tacteio a respiração, ainda me assiste este fluxo de ar nos pulmões. expulso-o até ao fundo. agora sim, a água pode inundar-me os pulsos.
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foi apenas um momento, mas voltei a mim depuradamente limpa e fresca. depois de levitar dentro de mim mesma, posso levitar em qualquer mundo, dentro de qualquer nuvem ou floresta. posso até levitar dentro do sofrimento, enfrentar levitando qualquer perda, enfrentar a verdade mais dolorosa de todas as verdades do universo, a impermanência doo amor e a infalibilidade dos assaltos metódicos da morte. estamos sós dentro do nosso invólucro. mas sabemos fazer-nos caber dentro do outro. e fazê-lo caber dentro de nós. porém, as mais das vezes estamos sós.