terça-feira, 13 de março de 2007

A verdade do amor

Pintura de Gauguin


Venho do coração do fogo nas escarpas de terra adormecida onde os pássaros se libertam do seu peso e as tardes são mulheres cantando em esteiras de preguiça e as noites se entrelaçam com a doçura das coisas de há muito já esquecidas. Trago pensamentos de quietudes em horizontes que se perdem no olhar e os meus cabelos são chilreios dos pássaros que ficaram a chorar por rios e fontes e lamentos e corpos banhados ao luar e por luas incandescentes renovados sussuros outrora ardentes basalto e xisto e mármore novamente porque idos foram os tempos dos gestos plenos vendavais das quedas de mais e mais sonhadas agora para depois das tranças de sonhos desatadas do profundo escavar nas alvas pedras fragas de frágeis madrugadas fascínio de ser toda a volumetria do universo na constelação do poema. Prescrevo uma cadeia de palavras unidas por pequenos nódulos de entendimento entre o reino animal e vegetal e mineral numa ambivalência de razões em que a menor quebra produz o grito das estações. Venho da fogueira antiga da purificação onde dançam avatares de todas as existências, corpos de mulher em luas cheias de filhos e de mistérios da natureza criadora, formas evanescentes da mãe terra uterina de todas as flores, árvores, peixes e répteis, mães de todos os gritos e inquietações Lilith e Eva numa só, costelas de si mesmas e liras de embalar o medo e acender o fogo à tarde pelo frio, recolhimento. Trago a memória de um vento que grita estéreis murmúrios de padecimentos renovados em sorrisos e chagas fechadas em lume aceso e ouve-se ainda nos meus passos o murmúrio bíblico do pecado original ainda menstruado, porque ser mulher é mais que tentação, mais que raiz e copa de todo o pecado. Venho das lendas presas pelos cabelos de mouras entre portas encantadas. Não tenho nada para cantar, nem verdades a defender, nem a minha pena inerte é voz bastante para reiterar no mundo a verdade inegável do amor que existe em cada ser, homem ou mulher.