sexta-feira, 2 de março de 2007

tardes rubras



A tarde? É uma tarde qualquer em que o tempo escorre em movimentos azuis
e se tinge de vermelho crepuscular. Uma tarde ferida pela tua vinda,
na natureza rubra desta escrita de pulsos abertos, sangrando em silêncio.
Há este calor aflito nos nossos corpos, um sol aceso nas ruínas em redor
e este quarto mudo de vozes ruborizando na pele que os teus dedos fazem
seda e desejo. Com este candelabro, amor,
faço luz sobre os exactos sulcos do desejo.

Sabes como tudo no silêncio tem o veludo do toque,
mesmo a confluência do olhar que me fita algures dentro de ti.

Sente a cor rubi deste vinho em que te brindo...
vem do fundo dos tempos nas leiras em que plantámos a paixão,
quando éramos os amantes escritos no livro do destino.
Quando numa dobra do tempo bebemos o sangue ardente
sem desferidos golpes nos corpos entreabertos de dor.

Sente a espuma desmaiada afagando a enseada dos meus seios.
Banha-nos os corpos como o som de violinos tensos,
o verniz avermelhado aceso nos dedos
e cada corda esticada aos limites do prazer.

Sem sangrar a noite, como poderíamos arborizar o vento
e pulsar como árvores a crescer nos limites do silêncio?

Vê como a tua voz tem o vermelho intenso das árvores crepusculares
e anuncia o sangue veloz que virá tingir o nosso leito.
Como as tuas raízes envolvem o meu corpo em tons de paixão,
este crescendo de luz atingindo o zénite magenta do teu grito,
quando te sigo em nuvens dispersas de murmúrios e me ausento.

Sente a incandescência de todas as coisas por dizer ainda,
nos murmúrios em que nos ruborizamos.
Ouve o crepitar deste fogo que acendi em pleno estio
e deixa que te consuma até a cinza não ser cinza,
mas apenas despojos de um fogo por extinguir.

No avesso do tempo somos nós e a voz. Nós e o silêncio.
Um útero que abrimos a pulso no coração do vento
e nos resume a fendas de um vulcão.
Incandescência amor, no centro da pulsão do universo.
Nós e as aves que soltamos entre os dedos.
Espasmos decerto na doçura deste vinho em que te bebo...