segunda-feira, 12 de março de 2007

crepuscular

Passo a tarde a tentar salvar o velho portátil, trabalho escusado, o arranjo é caro, a loja quer é vender e eis-me a comparar marcas, preços, a contar as economias, ah, sociedade de consumo, que tão mal nos serves, afinal o portátil só tem 4 anos e já é a terceira vez que tem a mesma avaria... bolas, bolas e bolas, para que vou eu alterar as prioridades da minha vida a gastar o que não tenho? Parto para a escola sem vontade, maldizendo a falta de equipamento, uma escola com umas boas nove centenas de alunos e um só portátil? Não tenciono trazer o novo, prometo a mim própria, mas sei que não vou cumprir. Trânsito. Tudo saturado de carros em cada artéria que busco, sangue bloqueado, sangue da terra a enegrecer o céu, e pessoas, pessoas, mundos fechados, gente sem nome, dentro de habitáculos frágeis como eu. Paciento, abro o livro, retoco as lições, a maquilhagem, suspiro. Tudo tão banal e quotidiano! .

Foi então que comecei a sentir uma presença. Terá sido uma música qualquer, ou o crepúsculo avistado ao fundo, o certo é que acalmei, por efeito de uma envolvência íntima, como se alguém me beijasse a alma, as pálpebras, e me soprasse ao ouvido palavras de carinho. Sonho acordada, dentro de um sonho que decorre dentro de um pesadelo. A mão na minha mão e o trânsito teimoso. Fecho os olhos, esqueço o ronronar do carro, só a música e um beijo. Desperto sem despertar, o trânsito começou a andar mais, a música muda, uma atrás de outra, uma mão no meu ombro, nos meus cabelos, a madeixa atrás da orelha, o toque no lóbulo e eu de encontro à minha rotina com aquela presença benfaseja. Como quando passo ao lado de um cemitério e me lembro do meu pai e fico assim, quentinha e confortável durante muito tempo. Chego à escola e não sei sair do carro, enfeitiçada. Passam as funcionárias da noite, olham-me com um sorriso, estranham-me ali, mas adivinham a inércia de começar, e não é isso, é muito mais, não sei mover-me. A música, talvez, a sensação arrepiante de que tudo possa ser real, aquilo que tanto imagino, uma espécie de saudade do não vivido, vivendo-o, Sultans of Swing e eu não me mexo, saem os alunos do dia, cruzam-se com os do turno seguinte, o Sr. Silvério, negro na noite, com o jantar num saco de plástico, a Cheila a pensar nos seus meninos, no marido que a não quer nos estudos, passa o Celso, o carpinteiro que nunca perceberá Ricardo Reis, passa Indira a angolana que nunca ninguém ensinou a escrever e eu fico, fico, até ao limite, a música prende-me, não vás ainda, olha-me nos olhos e diz-me o que lês e o arrepio, tão forte a sede, o beijo profundo, tenho de ir. E vou, planando para .abraçar uma rotina que afinal sinto feliz, nas vidas que se entrelaçam na minha e precisam de mim. Depois, tudo foi mais sorriso, uma leveza no andar pelo pátio iluminado, as árvores vigilantes, a palavra, o gesto, o risco, o brilho da noite.

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Foi uma presença que ficou até a noite se cumprir com um chá à pressa para vir para casa. Beber a noite, a noite mais funda que nos outros dias, a ponte ao longe em festa, um luar cálido, voltar suspensa para reencontar a branda doçura dos meus infantes e abraçar então a noite das palavras. Mas já cheguei atrasada para as palavras, a noite cresceu dentro de si mesma e ausentou-me. E agora percebo que vivi dentro dos meus sentidos o que os meus sentidos conseguiram arrancar de dentro de mim, mas se assim foi, que se solte mais vezes esta doçura, venha de mim ou do limiar de um crepúsculo a despedir-se.

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Boa noite!