sábado, 17 de março de 2007

O Beijo


saberás que nestes momentos podia verter-me completamente dentro de ti a pretexto desta suavidade que me enforma o corpo. mas nunca te digo tudo o que me arranco e sepulto, nem quero sequer dizer o que sem querer dizer-te penso e oculto. aliso as palavras devagarinho, seco-as do secreto sangue em que palpitam, são sudários, as minhas palavras são linho embebido nos fluidos que dispo. crestam ao sol e fargilizam-se à noite, são quebradiças e leves, ouve-las?
este vagabundear dentro de ti, desembarco todas as noites no teu telhado, como gato de viela, salto, arranho, chamo-te sem sequer dizer o teu nome e a noite ajusta-me dentro do teu olhar. mesmo que não saibas, mesmo que não sintas. e todas as noites quebro o selo da casa onde dormem os nossos sonhos, a frágil casa de abobe povoada por tantos estranhos, tantos olhares nas paredes, memórias sentadas nas cadeiras, mesas que ainda guardam migalhas da última ceia e a traição atirada sobre o sofá como manta a lembrar que ainda se abriga dentro de nós uma réstea de vida.
a casa fala-me secretamente, sabias? numa linguagem codificada em recantos de luz, sombra e penumbra, a casa aflita estreita-me a um canto de mim, enquanto me leva aos lábios o alento da tua imagem. a casa é a vontade de falar e de ouvir, a casa é o desejo de estar. ouves o som dos teus passos que se abeiram de ti? preciso que aches o teu corpo, para achares o meu. virão os teus lábios sobre o meu pescoço, eu fecharei os olhos, será como encontrar-te na rua e ficar parada dentro do teu olhar, sem acreditar que me esperas à esquina de uma palavra qualquer.
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será o beijo de Judas cravado no meu coração de serpente, eu e tu o arrepio da carne, seguros, incertos, conscientes da lâmina cortante das nossas palavras, e nenhuma corta a tarde, os nossos corpos a meio do trânsito, traídos, traídos pela multidão, empurrados contra a parede, um contra o outro, inseguros, familiares desconhecidos, cépticos e brandos, no abraço inesperado. os teus lábios virão sobre o meu pescoço, a tua face contra a minha, haverá talvez uma travagem, uma ou outra buzina no trânsito em sobressalto, talvez alguém nos olhe mais demoradamente, mas então nós estaremos para além da tarde embrulhados na pele, no cheiro, no apelo magnético das mãos, sim, seremos uma frase em itálico escrita a azul num grafitti da cidade.

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Uma boa noite!